segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ciência para inglês ver

No último dia 20, uma terça-feira, a Folha de S.Paulo revelou, no textoLíngua portuguesa esconde ciência nacional”, de Sabine Righetti, que os artigos científicos brasileiros são muito pouco citados no exterior, embora o país ocupe a honrosa 13ª posição em número de textos publicados. O motivo: 60% de nossos artigos estão em português.

A matéria da Folha gerou, no mesmo dia, uma breve mas interessante discussão no grupoDivulgação científica e popularização da ciência”, do qual participo, no Facebook. A grande questão é: publicar ou não diretamenteou apenasem inglês? E mais do que isso: é esse umcaminho sem volta”, como disse Luís Reynaldo Alleoni, editor da Scientia Agrícola, da USP de Piracicaba, presente no evento da Fapesp mencionado pelo jornal?

A meu ver, passar a publicar tão somente em inglês resolve um problema, mas poderá criar outros tantos.

Em primeiro lugar, verdade seja dita, são poucos os brasileiros, mesmo de nível superior, que têm de fato domínio da língua inglesa (falo em domínio mesmo, não em conhecimentos; domínio a ponto de escrever com a mesma desenvoltura que em sua língua pátria). Portanto, isso pode constituir um entrave a mais para os pesquisadores e criar dois tipos de situações distintas, mas ambas indesejáveis: desestimular a redação de artigos ou aumentar a obsessão existente entre parte do meio acadêmico por publicar, talvez até mais que por pesquisar. Serão um trabalho e uma preocupação extras para os cientistas.

Além disso, muitas de nossas pesquisas são voltadas para a realidade brasileira (o que talvez explique o fato de a situação em áreas como linguística, letras, artes e ciências sociais aplicadas serpior”, como aponta a matéria da Folha), e publicar seus resultados apenas em inglês poderá trazer efeitos deletérios em não poucos casos e setores, dificultando a disseminação de conhecimentos em nosso país. Imaginemos, por exemplo, um jovem cientista do interior de um estado pobre, que às vezes mal sabe ler um artigo científico em português, que dirá em inglês! As chances de ele obter novos conhecimentos serão cada vez menores.

Dizer que seria muito custoso a uma revista tornar-se bilíngue – como apontou Abel Packer, coordenador operacional do SciELO, base que reúne revistas científicas na internet – é uma meia verdade. Seria uma verdade completa (ou quase completa) se continuássemos a depender exclusivamente dos meios impressos. Mas, com o universovirtual” à disposição, fica bem mais fácil a uma revista em português ter uma versão somente on-line em inglês. Claro que haveria custos (com tradução, a fim de poupar os cientistas desse trabalho, e gerenciamento de um número maior de páginas eletrônicas), mas sem dúvida seriam bem menores que os custos gráficos extras, se tudo ainda fosse feito no papel.

Como apontou o físico e jornalista Roberto Belisário, na discussão via Facebook, é precisoadaptar o sistema para os diversos perfis, não tentar enquadrar a diversidade existente de perfis em um sistema construído sob medida para um conjunto restrito deles”. Em resumo, anglicizar toda nossa produção acadêmica escrita poderá – simcriar um outro caminho sem volta, e de destino muito incerto.

PS - Aos que não são assinantes da Folha e, por conseguinte, não podem acessar a página do sítio do jornal na internet, coloco aqui o vínculo para o mesmo texto, reproduzido no Jornal da Ciência, da SBPC: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79347.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Homenagem a Crodowaldo Pavan

Foi inaugurada nesta terça-feira, dia 20, na Estação Ciência, em São Paulo, a Sala Crodowaldo Pavan, em homenagem a um dos maiores geneticistas brasileiros, respeitado em todo o mundo, e que presidiu importantes instituições científicas, como a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), deixando-nos órfãos de sua presença em abril de 2009, quase oito meses antes de completar 90 anos de idade.

Não pude ir ao evento de inauguração da sala, mas conheci Pavan e tive o privilégio de estar em contato frequente com ele por alguns bons anos, quando trabalhei no Núcleo José Reis de Divulgação Científica da USP, do qual ele era coordenador de divulgação. Sinto-me em dívida com esse grande mestre, pois me ensinou muito e até hoje, mais de dois anos depois de sua morte, não me dignei a escrever um texto que faça jus ao significado que tem para minha ainda flébil carreira de jornalista, professor e estudioso da divulgação científica, bem como para mim enquanto pessoa (esta nota é muito pouco ante o que ainda quero expressar).

A mesma Estação Ciência que ora o homenageia com uma sala multimídia equipada com 48 notebooks, rede wi-fi e lousa eletrônica o havia prestado homenagem ao final de 2010, com a mostra Expedição Pavan, que depois esteve em Santo André e espero rode outras cidades do país. Uma exposição simples, mas que me foi muito tocante, com conteúdo lúdico e interativo, bem como vídeos apresentando depoimentos de pessoas que conheceram Pavan e palestras do próprio cientista, cujas palavras nunca deixavam de ser firmes e plenas de convicção. Saí de com os olhos marejados.

Todas as homenagens a Pavan serão sempre poucas, tamanha a envergadura intelectual e moral que demonstrava, com notável simplicidade. Era um homem de princípios, científicos e extracientíficos. Está fazendo muita, muita falta!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Invasões bárbaras

Lembram-se do caramujo-gigante-africano? Quem acompanha – ainda são poucoseste blog desde o início talvez se recorde do textoDe invasões, alertas e contradições”, de 25 de fevereiro deste ano, o segundo a ser postado aqui. Falava da presença de animais exóticos que têm feitos enormes estragos à biodiversidade brasileira.

Pois bem, reencontrei os bichinhos no Jornal Hoje, da Globo, no último sábado, dia 17. E convido a todos a verem com seus próprios olhos o que tais javalis, mexilhões e caramujos têm feito, com surpreendente voracidade: “Animais invasores causam sérios problemas no país”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Do progresso à depressão

Não sabia da existência do Observatório de Itacuruba. Ou melhor, da sua não existência. Soube de sua história, enfim, e fiquei a refletir sobre as intersecções entre ciência, política e a ideia de progresso. Ou, para ser mais preciso, sobre como a ciência pode ser usada com fins políticos, para vender uma ideia de progresso que possivelmente não virá – o que aconteceu, ao menos até o presente momento, com a população da pequena Itacuruba, no sertão pernambucano.

Vendeu-se a ideia de que a instalação de um centro de estudos astronômicos – incluindo um Observatório Astronômico Automatizado (OAA), um observatório solar e um telescópio magnético – traria enorme progresso ao município, gerando emprego e renda, mas o fato é que as obras estão há três anos paradas e a cidade se tornou a terra dos deprimidos: 1/3 da população adulta toma medicamentos psicotrópicos para amenizar a depressão, e o número de suicídios na cidade ultrapassa em quatro vezes a média nacional.

Mais detalhes no textoObservatório de Itacuruba: uma obra inacabada na ‘terra dos deprimidos’”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A ciência é bonita e profundamente estética

não é a primeira vez que ressalto a importância das imagens na divulgação da ciência. Muitos podem dizer que elas em si não trazem informações precisas – o que, também em si, é questionável –, como em tese devem ser as informações científicas, mas cumprem aquele que talvez seja o mais relevante papel ao se falar de algo relacionado à ciência: o de sensibilizar, desarmando os espíritos e aguçando a sede de conhecimentos.

Por isso quero destacar duas séries de fotografias que pude apreciar, na internet, nos últimos dias. A primeira, do dinamarquês Morten Koldby, revela a “personalidade” de animais selvagens. Ainda que alguns duvidem de que os bichos têm personalidadeeu não tenho mais dúvidas, ao menos sobre a da calopsita que tenho em casa –, não se pode negar o olhar expressivo dos retratados, ora denotando força, ora se mostrando comoventes.

A outra série de fotos é do australiano Lincoln Harrison, que expôs a lente de sua câmera ao longo de até 15 horas para capturar o rastro que as estrelas deixam no céu durante a rotação da Terra. São imagens impressionantespara não dizer impressionistas, como me disse um amigo, dada a semelhança com traços de pintores como Monet e Van Gogh.

Enfim, como enunciou José Reis, grande mestre da divulgação científica, “a ciência é bonita e profundamente estética; portanto, devemos exibi-la à sociedade”. Koldby e Harrison entenderam o recado – mesmo que não saibam quem o deu.

As fotografias podem ser contempladas ao se clicar nos vínculos abaixo:
Fotos revelam ‘personalidade’ de animais selvagens”;
Fotógrafo australiano registra o rastro das estrelas no céu”.