Há pouco mais de um ano, mais exatamente no dia 30 de setembro de 2010, deu-se o episódio que ficou conhecido, especialmente em redes sociais da internet, como “barraco no CJE”. O CJE em questão é o Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e o “barraco” se tratou de uma acalorada discussão envolvendo professores desse departamento e integrantes – inclusive da coordenação – do Núcleo José Reis de Divulgação Científica (NJR).
Fui aluno do CJE e trabalhei por longos anos no ou para o NJR – fui editor de suas publicações por sete anos e depois passei a ser colaborador, às vezes muito próximo, outras de modo mais eventual. Não participei do “barraco”, e por isso não cabe a mim relatá-lo ou dar qualquer opinião sobre ele. Sobre o que motivou a discussão, porém, tenho muito a falar – o que demorei a fazer, esperando um hipotético momento certo (se é este, não sei, mas não podia encerrar este ano sem me pronunciar).
Não mencionarei os nomes de nenhum dos envolvidos na briga, seja para preservar aqueles por quem tenho estima, seja pelo pouco que me resta de respeito e admiração intelectual por aqueles que, no meu entendimento, foram responsáveis – ou coniventes – por ações das mais graves que já pude testemunhar. Quem me conhece ou está por dentro da história saberá de quem estou falando.
Vamos aos fatos. Não me recordo bem da ordem cronológica dos acontecimentos, mas semanas antes – creio que já em agosto – da discussão no CJE, o Núcleo José Reis de Divulgação Científica foi vítima de três atitudes gravíssimas: sua sede, no então Bloco 9 da ECA (prédio que foi derrubado no início deste ano), foi lacrada, o seu site foi completamente apagado e três professores foram incluídos no conselho deliberativo do NJR sem que se consultassem os membros do Núcleo, conforme consta de seus estatutos.
O motivo alegado para tais ações foi de que haveria irregularidades cometidas por parte dos integrantes da coordenação do Núcleo, especialmente com relação aos rendimentos provenientes do Curso de Especialização em Divulgação Científica, promovido desde 2000. Se houve irregularidades, não sei, e não tenho como provar nem sua existência, nem o contrário. De qualquer modo, os acusados têm pelo menos cinco razões para se defenderem: 1) o curso em questão era um dos mais baratos da USP entre os de mesma categoria – trezentos reais a mensalidade, enquanto outros chegavam a duas ou três vezes isso; 2) nem sempre as turmas tinham muitos alunos, às vezes passavam de trinta, mas outras sequer chegavam a quinze; 3) havia despesas com o pagamento de professores, estagiários – pois nem sempre havia financiamento externo –, impressão de livros, entre outras; 4) se a intenção era ganhar dinheiro, outros cursos teriam sido abertos e outras fontes de renda criadas; 5) se alguém trabalhava lá, não eram os que acusam, que mal pisavam na sede do Núcleo, mas sim os acusados, que estavam quase todos os dias ali, desde que comecei a participar do NJR, em 1997.
Nem a maior das irregularidades, se provada, seria motivo suficiente para as ações que culminaram no “barraco no CJE”. O Núcleo José Reis foi ferido institucionalmente, de modo brutal. Não apenas suas salas foram fechadas – com material precioso, de livros e computadores a um microscópio usado por ninguém menos que Crodowaldo Pavan, um dos pais da genética brasileira, membro da coordenação do Núcleo até sua morte, em 2009 –, como também ficou indisponível o acervo de seu patrono, José Reis, considerado o maior divulgador científico da história de nosso país. Exceção feita à biblioteca de Reis, até hoje não se sabe onde se encontra o conteúdo das salas do NJR no antigo B9.
Já o site do Núcleo talvez fosse o mais extenso dentre os centros de pesquisa da Universidade de São Paulo. Continha textos de centenas de pessoas, dentre integrantes, colaboradores e alunos do NJR, não apenas em páginas comuns, mas igualmente em revistas eletrônicas com ISSN (sigla em inglês para Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas), como Espiral e Vox Scientiae. De um dia para o outro, seus textos foram excluídos da internet. Se mencionados nos currículos vitae ou lattes de parte dessas centenas de autores, com link e tudo, não podiam mais ser acessados – e os (ir-)responsáveis por tal atrocidade sequer consideraram esse aspecto. Mais de um ano após a deleção, o site continua “temporariamente fora do ar, em manutenção”.
É verdade que o Núcleo José Reis estava distante de seus tempos áureos, vividos, a meu ver, entre 2002 e 2006, tendo como marcos o Congresso Internacional de Divulgação Científica, nove anos atrás, e a conquista de uma Cátedra Unesco nesse tema, há cinco anos. É verdade que os acusados de irregularidades cometiam seus pecados – algum excesso de vaidade, decisões às vezes tomadas por capricho, ações vez ou outra feitas na base do improviso, equívocos em certos aspectos de sua linha editorial. Mas, a seu jeito, estão entre os principais responsáveis – grupo do qual não fazem parte os que os acusam – por terem conduzido o NJR a um patamar de enorme reconhecimento no campo dos estudos e ações em divulgação científica.
Dentre os que não se envolveram no “barraco no CJE”, provavelmente sou a pessoa que melhor conhece as qualidades e os defeitos daqueles a quem se acusa de irregularidades. E afirmo, com veemência: suas qualidades não apenas superam os seus defeitos, como o pior de seus defeitos – ou o conjunto de todos eles – não excede ou mesmo chega aos pés dos atos indignantes promovidos por seus adversários (alguns dos quais se diziam amigos), que resultaram no estado de coma institucional em que se encontra o Núcleo José Reis, cuja sorte será decidida por sindicância em curso na reitoria da USP.
Tenho fé, apesar desses pesares, de que prevalecerão os espíritos de luta e lucidez de grandes cientistas e divulgadores que inspiraram e frequentaram o NJR, como o próprio José Reis, Crodowaldo Pavan, Oswaldo Frota-Pessoa – que já não estão mais entre nós –, Julio Abramczyk, Maria Julieta S. Ormastroni, Nair Lemos Gonçalves, Aziz Ab'Saber e outros de imensurável envergadura moral e intelectual. Com aqueles que sempre se dedicaram ao seu fortalecimento e outros que venham a contribuir com a causa da divulgação do conhecimento científico, o Núcleo José Reis de Divulgação Científica sem dúvida verá terminar sua idade das trevas e iniciar seu Renascimento.